Música à data da Edição: Enam – Purple and Gold
De tanto me ter posto a ler o blogue da Rainfreak, fiquei a pensar um pouco sobre o processo criativo que leva ao nascimento de um personagem. É provável que haja milhentas abordagens ao tema, e eu própria não me rejo só por uma, mas sei reconhecer alguns dos seus pontos fundamentais:
- Os personagens nascem por necessidade.
O que eu quero dizer com isto? Que só surgem personagens novos quando são necessários à história. Se o personagem não vem acrescentar nada, vai para a gaveta e adeus spotlight. Eu, pelo menos, não sou apologista de histórias com três dúzias de personagens secundários, se bem que eu própria entendo que tenha alguns a mais. Há que salientar, claro, a diferença entre personagem secundário e figurante.
Isto também quer dizer que um personagem que deixe de ser necessário é descartável – e há muitas maneiras de descartar alguém.
- O personagem tem de ter uma motivação.
Aprendi, nalguma altura da minha vida, que, se o personagem A está na história, ele tem de querer alguma coisa, nem que seja um copo de água. Também aprendi que, criar um drama é apresentar personagens, fazê-los subir a uma árvore, atirar-lhes pedras e fazê-los descer. O que me leva ao meu próximo ponto:
- Os personagens são ferramentas da história.
Isto depende, claro, do tipo de história que se escreve, mas é geralmente verdade. Quando eu digo que o personagem é a ferramenta, é porque é ele que faz com que a história tenha pernas para andar, por força de um evento ou outro. Também com isto quero arrasar todas as ideias de que os personagens são nossos amigos, e precisam de ser ajudados ou guiados. Nada disso. A história, tal como a vida, vai dar cabo deles de uma maneira ou de outra e o karma que se lixe. A história vai moldá-los e modificá-los, tornando-os em pessoas diferentes e justificando até quem é esta nova pessoa em que eles se tornaram. O que nos leva a:
- Os atributos dos personagens nascem da história onde estão inseridos e só são determinados se forem de relevância para a história.
Peço perdão por ter utilizado a palavra “história” duas vezes na frase anterior.
Como a dita frase parece explicar sozinha, não defino nem atribuo características aos personagens se elas nunca vão ser reveladas. Um exemplo disto? De pouco me interessa se a Ângela gosta ou não de framboesa. Mas no caso do Mikhail (no setting de TOBIRA), interessa e até está justificado. Grande parte dos atributos de um personagem deve ser passível de ser justificável pela história. Se para a história não interessa que o Clor goste ou não de gatos, se calhar não vale a pena sequer mencionar esse pormenor. Acho que, deste modo, a justificação e o atributo estão bastante ligados, porque se conhece o atributo conhecendo a sua justificação.
Depois de ter mencionado estes pontos, acho que já dei a entender metade do meu processo criativo no que aos personagens diz respeito. É claro que também gosto de inserir um pouco de incoerência, ou até algum atributo que não vem a respeito de nada, só para apimentar. Mas há limites e o exagero não é de todo engraçado. Irrita-me bastante ver profile sheets super detalhadas em que até o grupo sanguíneo – que aposto eu que vai ser bastante irrelevante – está definido. Daqui a nada, em personagens de histórias de pugilismo vamos ver sheets que dizem que eles adoram framboesa – e a única maneira de o sabermos é pela dita Ficha do Personagem.
E já que estou a falar das míticas Fichas de Personagem, nunca consigo preenchê-las porque me faltam imensos pormenores sobre os meus personagens para as completar. E até porque descrever um personagem que segue um determinado rumo numa determinada história numa ficha… Parece-me despropositado, dado que os atributos mencionados nem sempre são estáticos (ok, ele vai continuar a ser um ser humano, mas ninguém me diz que de hoje para amanhã ele não deixa de gostar de gelado de baunilha. Ninguém mo garante). Cá para mim, qualquer pessoa, independentemente de quem é o autor, deveria ser capaz de preencher a Ficha só com a informação obtida da história. Até porque esta devia ser suficiente.
Até porque já deu para reparar que eu estou mais virada à história que ao personagem. Como naquela coisa meios vs fins. O fim seria a história, os personagens são apenas meios para a atingir. Touché.

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